Product designer bom resolve a dor e melhora a experiência dos outros. Dessa vez a dor era minha, e eu tratei a busca de emprego com IA como um produto pra lançar: pesquisa, arquitetura, as decisões, os trade-offs. Não é conceito de portfólio, é um sistema que roda e que eu uso toda semana. E desenhar pra si mesmo é o teste mais duro, porque o usuário no fim do funil era eu e eu desejava o melhor.
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Mandar mais currículo virou a única resposta
Todo mundo conhece essa cena, porque todo mundo já viveu ela.
Dezenas de abas abertas. A mesma carta de apresentação copiada e colada, trocando só o nome da empresa. O currículo saindo pro vácuo. E aquela sensação surda de que o esforço e o resultado pararam de conversar. Você trabalha mais e recebe o mesmo silêncio.
A saída que todo mundo repete é “manda mais”. Mais currículo, mais aplicação, mais feed. Como se candidatura fosse loteria e a única variável fosse quantos bilhetes você compra.
Eu quase comprei essa ideia. Ainda bem que parei pra pensar.
A virada
Candidatura não é sorte, é um funil
Procurar emprego não é sorte. É um funil. E funil é engenharia, não esperança.
Quando você olha de perto, o gargalo nunca foi “faltam vagas”. O gargalo é foco e abordagem. Você espalha energia em vaga que não combina, chega como candidato genérico numa pilha de genéricos, e não guarda memória de nada. Três buracos, e nenhum se resolve mandando mais.
E aí a ficha caiu de um jeito que só cai pra quem trabalha com produto: esse funil quebrado eu já sabia consertar. Só que pra vender.
Eu tinha construído uma ferramenta de prospecção comercial pra minha agência. Achar o cliente certo, entender a conta, preparar a conversa, acompanhar. Candidatura é o mesmo problema com outra roupa. A vaga é o lead. A empresa é a conta. O recrutador é o decisor. Não precisei de sorte, precisei enxergar o padrão.
Arquitetura
Dois mundos que não podem se misturar
Cliente de agência e vaga de emprego são dois universos. Critérios diferentes, tom diferente, dado diferente. Se misturar, contamina. Então não fiz “uma tela de vagas”. Fiz um segundo modo do sistema, que compartilha a base mas nunca deixa um mundo vazar no outro. Você troca de modo e o app inteiro vira outra coisa.
A partir daqui cada parte foi um problema pra resolver, na ordem em que a jornada acontece. A inspiração foi uma ferramenta de IA de busca de leads.
Descoberta
Acordar com as vagas já na mesa
O primeiro inimigo é o garimpo. Rolar feed é caçar no escuro e depender de abrir o app na hora exata. Eu queria o contrário: acordar com as vagas já na mesa.
Construí um radar que roda uma busca sozinho, na frequência que eu mando (diário, a cada dois dias, semanal, ou pausado). Ele varre quatro fontes ao mesmo tempo, cada uma cobrindo um ângulo que as outras não pegam. Gupy (o grosso das vagas nacionais). LinkedIn Jobs. Glassdoor (as gringas remotas, e ainda traz a nota da empresa e a faixa salarial). E uma busca web aberta pro que escapa dos boards. Uma camada de IA filtra o que não é do meu alvo, remove duplicadas e enfileira o resto. Eu abro o app e o trabalho já foi feito.
O detalhe que revela intenção: as fontes têm cota justa (nenhuma engole as outras), o radar dispara só quando eu uso o sistema, e respeita a frequência. Nada de robô martelando serviço de terceiro atrás das minhas costas. Custo por uso, não por vaidade.
Triagem
A nota é do quanto a vaga combina comigo
Toda vaga chega com uma nota de aderência ao meu perfil. Não uma nota genérica de “vaga legal”, a nota de o quanto ela conversa comigo, cruzando os requisitos com o que meu material comprova.
Parece sutil, mas inverte o funil inteiro. Em vez de eu me contorcer pra caber em cada vaga, eu escolho onde vale gastar energia. Na mesma triagem, um selo me avisa quando a vaga exige inglês (ou outro idioma), pra eu não descobrir isso no meio da entrevista. O sistema faz a triagem pra eu fazer a escolha inteligente.
E a peneira é minha pra afinar. Eu digo ao radar o que jogar fora pelo título (estágio, júnior, pleno) e também os níveis que ele deve buscar acima do meu (staff, principal, head de design), sem encostar numa linha de código. Mudou o alvo, eu mudo a configuração e o radar obedece. A estratégia mora na configuração, não no sistema, então uma busca nova nasce sem eu reescrever nada.
Quando a vaga esconde o salário, o sistema não fica no escuro nem inventa. Ele busca a faixa de mercado daquele cargo numa fonte pública e me mostra rotulada como faixa de mercado, não como a oferta da vaga. Se não achar em fonte nenhuma, fica em branco. Um número com procedência vale mais que um chute, e chute vestido de verdade é justo o que eu não faço.
Pesquisa
Um dossiê da empresa antes da primeira palavra
Antes de abordar alguém, o sistema monta um dossiê da empregadora, ancorado no texto real das vagas e no site: o que a empresa faz, o que a cultura evidencia, se existe time de design. Junto, puxa a nota dela no Glassdoor e lista as outras vagas abertas daquela empresa, pra eu ver o quadro completo antes de investir.
E aqui mora uma regra dura: ele nunca inventa. Não cria nome de pessoa, não chuta benefício. Onde falta prova, escreve “confirmar no Glassdoor” em vez de encher linguiça. Prefiro entrar na conversa com menos e verdadeiro do que com muito e frágil.
Banco
Todo o meu material, tipado num lugar só
Currículo, biografia, cases, respostas prontas, pretensão. Tudo num banco. E o atalho que mais me devolveu tempo: eu subo vários PDFs, DOCX ou colo links do portfólio de uma vez, e a IA lê, separa em entradas tipadas (currículo, bio, um card por case, links) já em markdown, e eu só reviso.
De novo a mesma lei: ela usa só o que está no arquivo. Não inventa experiência nem número. A ferramenta organiza o que é meu, não fabrica o que eu não sou.
Diagnóstico
Uma análise que aponta onde falta prova
Colei meu perfil do LinkedIn, meu CV, meus cases. O sistema analisa cada um com uma régua de níveis de Product Designer (baseada no framework público da Intercom). O truque: o nível vem do escopo de impacto que o material evidencia, nunca do título que eu me dou.
Ele me diz onde estou forte, onde falta evidência, e reescreve trechos na minha voz. Quando um eixo não tem prova, crava “sem evidência” em vez de me dourar. Análise que só elogia é abraço, não é ferramenta.
Abordagem
A mensagem certa pra quem realmente decide
Pra cada vaga, o sistema encontra quem realmente decide (recrutador, gestor de design, líder de produto) ou outro perfil de acordo com o tipo de vaga que estou procurando e, quando dá, confirma o e-mail sem enviar nada pra pessoa, então eu não queimo um contato num endereço chutado.
E ele é honesto sobre como sabe. Quando o anúncio do LinkedIn expõe a equipe de contratação, ele traz a pessoa exata que abriu a vaga, marcada como confirmada. Quando não expõe, ele infere pelo cargo (uma Product Design Lead numa empresa que abriu vaga de Product Designer provavelmente influencia essa contratação) e marca como inferência, nunca como fato. A nota de cada contato ainda enxerga as outras vagas abertas da empresa, então um recrutador de CX sobe pra vaga de CX e um gestor de design pra a de design, sem os dois se misturarem.
A abordagem cruza a vaga real, o dossiê e os meus cases que conversam com aquilo. E é aqui que entra a parte que mais me orgulha como designer: eu não deixei a IA escrever “com cara de IA”. Li um estudo recente (StoryScope, da Universidade de Maryland com a Google DeepMind) sobre o que denuncia um texto de máquina, e a descoberta é que os sinais são de estrutura, não de palavra: a IA moraliza, explica a lição, elogia no vago, abusa do travessão, fecha tudo redondinho. Encodei o avesso disso nas minhas regras de geração: cita um detalhe específico e nomeado (ou não cita nada), fala plano, sem travessão, e nunca inventa. Sai uma mensagem que soa como eu num dia bom, não como um modelo de linguagem. Cada versão que eu gosto fica salva pra comparar com a próxima.
Tem uma leitura disso que é a espinha do meu trabalho de CX. Do outro lado do e-mail tem uma pessoa, quase sempre afogada na mesma pilha de candidato genérico que me incomodava do lado de cá. A experiência dela importa. Uma abordagem que chega específica, honesta e no tom certo não é só o que me faz ser lido, é respeito pelo tempo e pela atenção de quem recebe. Eu tratei o recrutador como cliente e a caixa de entrada dele como uma tela que eu também estava desenhando, não como uma lista pra disparar molde.
A linha que eu não cruzo: o sistema nunca envia nada sozinho, em canal nenhum. Ele prepara, eu reviso, eu aperto enviar. Ferramenta boa amplia o meu julgamento, não toma meu lugar.
E o toque não se perde no caminho. Quando eu registro que abordei o recrutador, digamos no LinkedIn, a própria vaga anda pra etapa “Abordado” e o histórico dela guarda a linha “abordado via LinkedIn”, com a data. Se aquele mesmo recrutador tem duas vagas minhas abertas, eu escolho qual delas avança, sem misturar. Da próxima vez que eu abrir a vaga, ela me conta sozinha onde parei e por qual canal. A memória é do sistema, não da minha cabeça.
Conclusão
O caos virou sistema, e o usuário era eu
Eu podia ter só mandado 200 currículos e reclamado do mercado. Escolhi olhar pra minha própria dor como um problema de produto: entender o funil, achar o gargalo de verdade (não é falta de vaga, é falta de foco e de abordagem) e projetar a solução ponta a ponta. Pesquisa, arquitetura, trade-offs, implementação, e a disciplina de manter tudo honesto quando seria mais fácil inflar.
E tem uma experiência que eu acabei desenhando pra mim: procurar emprego é, ele mesmo, um produto de UX ruim, ansiedade, caos, a sensação de estar sempre esquecendo alguém. Acordar com as vagas já na mesa e ter uma memória que não vive na minha cabeça mudou como eu atravesso o processo, não só o placar no fim dele. Os dois lados do funil são gente, e experiência de gente é o que eu faço.
É assim que eu trabalho num produto de verdade. A diferença é que, dessa vez, o usuário no fim do funil era eu. Se é esse tipo de designer que você procura, alguém que transforma o caos em sistema e defende cada decisão, esse case não é a minha promessa. É a minha prova.